“Olhos de cigana oblíqua e dissimulada” significa, em Dom Casmurro, um olhar ao qual se atribuem intenções difíceis de perceber e a capacidade de esconder o que se pensa ou sente. A descrição é feita por José Dias sobre Capitu, numa conversa com Bentinho. Ela expressa a desconfiança de quem fala; não comprova que a personagem seja falsa ou tenha cometido uma traição.
O ponto decisivo da passagem está nessa diferença: uma coisa é descrever os olhos de alguém; outra é usar essa descrição para julgar seu caráter. Machado de Assis aproxima as duas coisas e permite ao leitor observar como uma opinião alheia passa a influenciar a maneira de Bentinho olhar para Capitu.
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O que significa “oblíqua e dissimulada”?
Na expressão do romance, oblíqua sugere uma atitude indireta, enviesada ou pouco franca; dissimulada indica alguém que esconde pensamentos, sentimentos ou intenções. Os termos caracterizam a maneira como José Dias apresenta Capitu a Bentinho.
| Termo | Sentido da palavra | Como funciona na passagem |
|---|---|---|
| Oblíqua | Literalmente, inclinada ou dirigida de lado; em sentido figurado, indireta ou ambígua. | Transforma a ideia de um olhar de soslaio numa suspeita sobre a franqueza de Capitu. |
| Dissimulada | Que encobre o que pensa ou sente. | Acrescenta ao retrato a acusação de ocultar intenções. |
| Cigana | No trecho, integra a comparação escolhida por José Dias. | A imagem é associada à suspeita pelo personagem. Não descreve um traço real de povos ciganos. |
Os sentidos de “oblíquo” e “dissimulado” podem ser conferidos nos verbetes do Dicionário Priberam: oblíquo e dissimulado. O dicionário explica o vocabulário; a cena do romance mostra quem usa essas palavras e com qual efeito.
Um detalhe gramatical que muda a leitura
Repare na concordância: são olhos de [cigana oblíqua e dissimulada]. Os adjetivos aparecem no feminino singular porque acompanham “cigana”, e não “olhos”, que pediria “oblíquos e dissimulados”.
Esse encaixe ajuda a perceber o salto feito pela frase: os olhos passam a representar uma figura inteira, já marcada por um julgamento. A expressão não se limita a informar o formato físico dos olhos de Capitu.
Quem diz a frase sobre os olhos de Capitu?
É José Dias, agregado da família de Bentinho, quem formula a descrição no capítulo XXV (25), “No Passeio Público”. Durante a caminhada, ele fala de Pádua, pai de Capitu, e faz comentários depreciativos sobre a família da menina. É nesse contexto que menciona os olhos dela:
“Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada.”
Machado de Assis, Dom Casmurro, capítulo XXV. Grafia atualizada.
A passagem está no capítulo XXV de Dom Casmurro, disponível na Wikisource. O contexto importa: José Dias não faz uma observação neutra. Ele avalia Capitu enquanto desqualifica pessoas próximas a ela.
Há, portanto, três instâncias diferentes: Machado de Assis escreve o romance; Bento Santiago narra suas lembranças; José Dias faz o comentário dentro da história. Dizer apenas que “Machado chama Capitu de dissimulada” apaga essas diferenças e transforma uma fala de personagem em diagnóstico do autor.
Por que a comparação usa a palavra “cigana”?
A escolha da palavra participa da caracterização pejorativa feita por José Dias. Ao ligar “cigana” a “oblíqua” e “dissimulada”, sua fala mobiliza uma imagem estereotipada para tornar a menina suspeita aos olhos do interlocutor.
Uma leitura crítica precisa reconhecer esse mecanismo sem repeti-lo como verdade. Não há fundamento para deduzir honestidade, caráter ou intenção a partir de origem étnica, aparência ou formato dos olhos. O que se analisa aqui é o efeito de uma comparação no discurso de uma personagem literária.

As imagens mantidas neste artigo são ilustrativas: não retratam Capitu nem constituem evidência sobre a personalidade de pessoas ou grupos.
Como a frase influencia o olhar de Bentinho
No capítulo XXXII (32), “Olhos de ressaca”, Bentinho se lembra da definição de José Dias e pede para examinar os olhos de Capitu. O narrador conta que não conhecia o sentido de “oblíqua”, mas conhecia “dissimulada” e queria verificar se o rótulo se aplicava a ela.
“eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas.”
Machado de Assis, Dom Casmurro, capítulo XXXII. Grafia atualizada.
Esse pequeno trecho impede uma leitura apressada. Ao olhar de perto, Bentinho não encontra uma marca física que confirme a acusação. Ele reconhece a aparência e a doçura que já conhecia. Só depois a contemplação ganha outra intensidade, levando à imagem dos “olhos de ressaca”. A sequência pode ser conferida no capítulo XXXII, “Olhos de ressaca”.
Uma leitura em três movimentos
- José Dias fornece um rótulo. Antes de qualquer exame, já existe uma expressão que orienta a suspeita.
- Bentinho procura a confirmação. Ele passa a observar Capitu com uma pergunta sugerida por outra pessoa.
- A lembrança vira narrativa. Bento Santiago conta a cena ao leitor e organiza o que sabemos sobre ela.
Nossa leitura é que a força da passagem está menos em revelar uma suposta essência de Capitu do que em mostrar como se constrói um modo de interpretá-la. A palavra recebida de José Dias se interpõe entre Bentinho e a menina. O leitor precisa avaliar a pessoa observada e, ao mesmo tempo, o ponto de vista de quem a observa.
Isso não exige decidir antecipadamente que toda fala de Bento seja mentira. Exige separar observação, interpretação e acusação — três coisas que o ciúme pode aproximar, mas que não são equivalentes.
“Olhos de cigana” e “olhos de ressaca” são a mesma coisa?
Não. As duas imagens se referem a Capitu, mas têm funções diferentes. A primeira chega a Bentinho como um julgamento de José Dias; a segunda é elaborada na narração de Bento para expressar o efeito do olhar dela sobre ele.
| Aspecto | Olhos de cigana oblíqua e dissimulada | Olhos de ressaca |
|---|---|---|
| Quem formula a imagem | José Dias, em fala relatada por Bento. | Bento Santiago, narrando a contemplação dos olhos de Capitu. |
| Onde aparece a passagem central | Capítulo XXV, “No Passeio Público”; retomada no XXXII. | Capítulo XXXII, “Olhos de ressaca”. |
| Ideia dominante | Desconfiança e atribuição de intenções ocultas. | Atração intensa, figurada pela força do mar que arrasta. |
| Cuidado de interpretação | Não converter um juízo de personagem em prova de caráter. | Não confundir fascínio ou sensação de ser arrastado com prova de traição. |
A “ressaca” é marítima: o próprio texto a compara à vaga que se retira da praia. Não se trata do mal-estar depois de beber. A metáfora descreve uma força que envolve e puxa o observador, combinando fascínio e a sensação de perder o controle.

A expressão prova que Capitu traiu Bentinho?
Não. Essa descrição, isoladamente, não prova uma traição. Ela mostra a opinião de José Dias e o modo como Bentinho a recebe. Uma comparação sobre o olhar não é um acontecimento que demonstre adultério.
O debate sobre Capitu envolve a leitura do romance inteiro e a avaliação da narrativa em primeira pessoa. Para interpretar esta passagem com rigor, basta evitar um erro: usar como evidência da culpa de Capitu justamente uma frase que já nasce como julgamento contra ela.
Como responder em uma atividade de interpretação de texto
Uma resposta bem construída identifica o sentido figurado, o responsável pela fala e seu limite como evidência. Por exemplo:
A expressão atribui ao olhar de Capitu um caráter indireto e a capacidade de ocultar intenções. É um julgamento de José Dias, retomado por Bentinho, que contribui para a imagem ambígua da personagem. Não funciona, por si só, como prova de falsidade ou traição.
Exemplo de resposta elaborado pela Vis Pacis.
Se a questão pedir análise, acrescente o detalhe que sustenta essa interpretação: no capítulo XXXII, Bentinho tenta conferir o rótulo recebido, mas inicialmente reconhece nos olhos de Capitu a cor e a doçura que já conhecia. Assim, a resposta se apoia no texto, em vez de apenas repetir que a personagem é “misteriosa”.
Dúvidas frequentes
O que significa “olhos oblíquos” nesse contexto?
Embora “oblíquo” possa descrever algo inclinado ou de lado, a passagem de Dom Casmurro usa a imagem para sugerir uma atitude indireta e pouco transparente. Não é uma classificação anatômica dos olhos de Capitu.
“Olhar de cigana” é um elogio?
Depende do contexto em que a expressão é usada. Na fala de José Dias, não é um elogio: ela aparece junto de “oblíqua e dissimulada” e de comentários depreciativos. Fora da obra, repetir a comparação sem contexto também pode reproduzir um estereótipo.
A expressão tem um significado espiritual ou religioso?
Para compreender essa passagem, o contexto relevante é literário: a conversa de José Dias com Bentinho e sua retomada no romance. Não é preciso recorrer a interpretações religiosas ou a supostos poderes de um olhar para explicar o trecho.
Em qual capítulo posso encontrar a expressão?
A fala de José Dias está no capítulo XXV, “No Passeio Público”. A formulação é lembrada no capítulo XXXII, “Olhos de ressaca”. Citar os capítulos é mais seguro do que dar uma página única, porque a paginação muda conforme a edição.
Fontes para conferir a interpretação
- Machado de Assis, Dom Casmurro, capítulo XXV — “No Passeio Público”. Leia a fala de José Dias no texto da obra.
- Machado de Assis, Dom Casmurro, capítulo XXXII — “Olhos de ressaca”. Confira a retomada por Bentinho e a comparação com o mar.
- Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Verbetes “oblíquo” e “dissimulado”.
Nota editorial: esta explicação foi revista com consulta aos capítulos citados. As citações de Machado de Assis tiveram a grafia atualizada; a análise e o exemplo de resposta são da Vis Pacis. A interpretação distingue o que as personagens dizem do que o texto permite concluir.




